
O ANO LECTIVO COMEÇA MAL
Agrava-se a ofensiva contra os professores e educadores e a escola pública
Há precisamente um ano, numa altura em que o governo
através de uma intensa campanha de marketing,
procurava “vender” a ideia de que a abertura do ano
lectivo se caracterizava pela normalidade e estabilidade,
o PCP afirmou que as decisões que o governo vinha a
tomar, não só não resolveriam nenhum dos muitos
problemas de que padece o nosso sistema educativo,
como iriam criar níveis de instabilidade propícios ao
crescimento do insucesso e à falta de qualidade do
sucesso. Mais uma vez tínhamos razão. O ano lectivo
começou mal e acabou pior.
Sem que o governo tenha procurado entender as razões do
protesto de professores, pais e alunos e muito menos
tenha tomado as medidas necessárias para combater a
crise que se vive no sistema educativo, o actual discurso
do governo, apesar de algumas diferenças por razões de
táctica política, mantém-se no essencial.
Estaríamos perante uma cópia integral do que foi dito na
abertura do ano lectivo 2005/2006 se não fossem as
referências ao valor social da profissão de professor, à
decisão de atribuir um prémio «ao melhor professor do
ano» e as preocupações da Ministra com os salários dos
professores mais jovens, discurso que não deve ser levado
a sério porque tem origem nos mesmos que andaram 18
meses a denegrir a profissão docente na opinião pública, a
transformar os professores nos únicos responsáveis pelos
níveis de insucesso escolar e de abandono precoce e
que acabaram com os estágios remunerados.
(...)
Para o PCP não há nem normalidade nem estabilidade na
abertura do ano lectivo, desde logo porque o governo
tomou um conjunto de medidas que vão agravar ainda
mais a instabilidade no corpo docente com consequências
no processo ensino/aprendizagem, nas motivações dos
alunos e na vida das famílias.
Como é possível ter estabilidade e sucesso, quando na
abertura do ano lectivo os professores estão confrontados
com um processo de colocação marcado por inúmeros
erros, irregularidades e ilegalidades que estão a provocar
numerosas injustiças e estão a levar a uma profunda
indignação por parte destes? Do concurso fica a revolta
que vivem os professores silenciada pela indiferença dos
responsáveis do Ministério da Educação. Ficam 1500
lugares por preencher porque desapareceram
misteriosamente em concurso. Ficam os erros, as
ilegalidades e as irregularidades não corrigidas.
(...)
Como é possível ter estabilidade e sucesso, quando está
em curso um processo de encerramento, por agora, de
cerca de 1500 escolas do 1º Ciclo do Básico sem que a lista
definitiva seja ainda hoje conhecida e quando se sabe que
uma grande parte dos problemas que vão surgir com a
transferência dos alunos para as escolas de acolhimento,
não estão ultrapassados? A decisão de encerrar estas
escolas, a sua grande maioria no mundo rural, não se
desliga de uma opção sustentada na tese “se não existir
nada, então justifica-se que nada exista”.
(...)
Como é possível ter estabilidade e sucesso quando são
conhecidas as graves lacunas no plano da estrutura e
conteúdos curriculares, como está a acontecer
particularmente com o 1º e 3º Ciclo do Básico e com o
Secundário, neste último caso com graves incidências no
percurso dos alunos que continuam os estudos no ensino
superior? Conforme o PCP denunciou em momentos
anteriores, a prática tem vindo a demonstrar que a actual
estrutura curricular do Ensino Secundário não serve os
interesses dos jovens ou do País e, ao invés de permitir um
melhor sucesso escolar e educativo, esta estrutura é
geradora de mais insucesso e abandono escolar. A
flexibilidade e hipótese de escolha das disciplinas são
mera aparência, sendo a realidade muito diferente: as
escolhas das disciplinas são condicionadas aos números
mínimos de alunos exigidos pelo Ministério da Educação
para a respectiva abertura. Por outro lado, denunciamos
como extremamente negativa a possibilidade de acesso ao
Ensino Superior sem a obrigatoriedade de frequência e
aprovação no 12º ano de disciplinas fundamentais aos
vários cursos – exemplo, como Física, Química, Literatura
Portuguesa, etc…
Como é possível ter estabilidade e sucesso quando, por
uma mera medida administrativa, os alunos com
necessidades educativas especiais de carácter prolongado
(conceito inadequado e restritivo, que o M.E. insiste em
usar) passam de 65.000 (ano lectivo de 2005/2006) para
25.000 (ano lectivo de 2006/2007)? Bem pode o ME
justificar a medida, dizendo que se chegou a este número
por uma sinalização mais rigorosa e pela aplicação de
taxas de incidência científicas, quando as verdadeiras
razões são de ordem economicista como se pode
comprovar na brutal redução de mais de 50% no número
de docentes de Educação Especial, de mais de 7.000 do
anterior ano lectivo para cerca de 3.500 no actual.
(...)
Marca também, negativamente, este início de ano lectivo,
a tentativa do ME/Governo de desvalorizar social e
material e profissionalmente os educadores e professores,
visível no projecto de revisão do Estatuto da Carreira
Docente que apresentou. Sem uma negociação efectiva, o
ME pretende impor uma redução real dos salários e
usufruir ao longo de toda a carreira e a redução ou mesmo
eliminação de direitos fundamentais de cidadania, como
sejam o direito à protecção na doença ou beneficiar, sem
consequências na carreira, de licença de Maternidade.
Hoje a política educativa em Portugal é definida em
função das estatísticas, resumindo-se à gestão do parque
escolar e dos recursos humanos (professores) numa
perspectiva economicista e do aumento do número de
diplomas a qualquer preço. O aumento do financiamento
das escolas privadas com dinheiros públicos, a crescente
desresponsabilização do Estado face às suas
responsabilidades constitucionais nesta área, abrindo
espaço para a intervenção do sector privado, as barreiras
cada vez mais evidentes no acesso e sucesso escolares que
são colocadas aos jovens oriundos das classes mais
desfavorecidas, tornando o sistema cada vez mais elitista,
são componentes fundamentais das mudanças que se estão
a verificar.
O PCP reafirma a necessidade de se orientar o nosso
Sistema Educativo de acordo com o interesse nacional,
incorporando desde logo o princípio de que investir em
Educação é investir no País e não, como tem vindo a
acontecer, considerar este investimento como mais uma
despesa. Um Sistema Educativo que prepare os homens e
as mulheres de amanhã numa perspectiva integral de
formação e não apenas a pensar no mercado de
trabalho. Um Sistema Educativo que integre uma escola
que combata as desigualdades económicas e sociais, que
dê aos alunos, a todos os alunos, iguais oportunidades e os
apoios necessários para que tenham sucesso escolar e
educativo.
(Excertos da Declaração do PCP sobre o
início do ano lectivo, em 18 de Setembro de 2006)